Intermittent Living - A utilização dos desafios ancestrais como vacina contra os efeitos nocivos da vida moderna
- Guilherme Leme

- 28 de out. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 6 de mai. de 2025
AS DOENÇAS crônicas não transmissíveis (DCNT), como doenças cardiovasculares (CVD), diabetes doenças respiratórias, transtornos mentais, doenças autoimunes (AID) e câncer, têm aumentado drasticamente nas últimas três décadas. Isso sugere que a inflamação crônica de baixo grau (LGI), causada por uma atividade excessiva e inadequada do sistema imunológico inato, é incapaz de responder adequadamente aos novos sinais de perigo enfrentados pelo homem moderno.
Hipótese Central
Os autores propõem que, enquanto o acúmulo de fatores de risco metabólicos e psicológicos gera inflamação crônica e envelhecimento, o uso de desafios intermitentes, como frio, calor, jejum e hipóxia, durante um período de 7 a 10 dias, poderia atuar como uma espécie de vacina contra os efeitos deletérios da inflamação crônica, prevenindo o envelhecimento precoce e o desenvolvimento de doenças crônicas.
Desafios Modernos e a Hipótese do Mismatch
O ambiente atual, que inclui fatores como excesso calórico, estresse psicossocial, sedentarismo, toxinas ambientais e privação de sono, está em desacordo com o ambiente no qual os seres humanos evoluíram. Este desacordo cria um conflito entre os genes humanos e os estressores modernos, resultando em uma disfunção metabólica que favorece a inflamação crônica e o estado hipometabólico, o que pode danificar múltiplos órgãos e sistemas. Essa condição foi chamada pelos autores de hipótese do mismatch.

Desafios Intermitentes e Seus Efeitos na Saúde
1. Hormese
• A hormese é a resposta adaptativa evolutiva a pequenos estressores que aumentam a
resistência do organismo a estressores mais severos. Ela atua em níveis celulares e
sistêmicos, e seus principais mediadores moleculares incluem o fator de transcrição Nrf2,
que regula mais de 270 genes responsáveis pela resposta antioxidante e de desintoxicação.
2. Intermitent Living
• O conceito de "Intermittent Living" refere-se à introdução intermitente de desafios ambientais antigos, como exposição ao frio, calor, fome, sede, e hipóxia. Esses estímulos podem melhorar a flexibilidade metabólica, aumentar a proliferação mitocondrial e melhorar a resistência ao estresse moderno.
• Esses estressores intermitentes eram comuns entre nossos antepassados e foram responsáveis pelo desenvolvimento de respostas biológicas que garantiam a sobrevivência e a reprodução.
Exemplos de Desafios Intermitentes
1. Jejum Intermitente
• O jejum intermitente (IF) foi um componente chave na evolução humana, onde os períodos de fome e fartura moldaram a resistência humana.
• Os benefícios do jejum incluem:
◦ Aumento da flexibilidade metabólica, forçando o corpo a usar cetonas como fonte de energia, em vez de glicose.
◦ Proteção do cérebro e coração contra o estresse moderno.
◦ Redução da inflamação crônica, ao forçar o sistema imunológico a entrar em um estado de repouso.
◦ Ativação da via mTOR, importante para o controle do crescimento celular e prevenção do envelhecimento.
2. Exposição ao Frio • A exposição intermitente ao frio ativa a formação de tecido adiposo marrom (BAT) e estimula a "browning" ( Transformação para gordura marrom) do tecido adiposo branco, ajudando a queimar gordura e melhorar a sensibilidade à insulina.
• Estudos mostraram que a adaptação ao frio:
◦ Reduz os níveis de homocisteína, melhora o perfil lipídico e aumenta a capacidade
de efluxo de colesterol.
◦ Estimula a expressão de Nrf2, aumentando a resistência ao estresse oxidativo.
3. Exposição ao Calor
• A exposição intermitente ao calor também oferece proteção. Ela aumenta a expressão de
proteínas de choque térmico (HSPs), que têm funções importantes na proteção celular, na
degradação de proteínas danificadas e no combate à inflamação.
• Banhos de sauna frequentes, por exemplo, foram associados a uma redução de 63% no risco de mortalidade por todas as causas e doenças cardiovasculares.
4. Hipóxia Intermitente
• A hipóxia intermitente, ou períodos curtos de falta de oxigênio, pode ser utilizada para
proteger o cérebro, coração e outros órgãos contra os danos da isquemia e hipóxia crônica.
• A ativação do fator HIF-1 (fator induzido por hipóxia) desempenha um papel central nas
respostas adaptativas à hipóxia, ajudando na recuperação de danos neuronais e melhorando
o metabolismo cerebral.
5. Hipercapnia Intermitente
• A hipercapnia intermitente, caracterizada pelo aumento dos níveis de dióxido de carbono
no sangue, tem sido estudada como uma estratégia terapêutica para reduzir os danos causados por isquemia e outros estressores. Estudos mostram que a hipercapnia controlada
pode diminuir a inflamação e proteger órgãos como o cérebro e o coração.
Hormese e o Papel do Nrf2
O fator de transcrição Nrf2 é um mediador chave da hormese, regulando a resposta antioxidante e a defesa contra o estresse oxidativo. Ele é ativado por compostos como o sulforafano (encontrado no brócolis) e a curcumina (encontrada no açafrão), que são capazes de promover efeitos citoprotetores em vários órgãos.
• A ativação de Nrf2 ajuda a reprogramar o metabolismo, aumentar a biogênese
mitocondrial e melhorar a resistência ao estresse celular.
• Estressores leves, como exposições ao frio e calor, ativam o Nrf2, conferindo proteção
contra doenças crônicas e envelhecimento.
Conclusão
Desafios ambientais e fisiológicos enfrentados por nossos antepassados foram cruciais para o desenvolvimento de mecanismos adaptativos que hoje são essenciais para nossa saúde. A ausência desses desafios na vida moderna pode ser considerada um novo fator de risco. A reintrodução controlada desses desafios, sob o conceito de Intermittent Living, pode agir como uma forma de "vacina" contra os efeitos deletérios da inflamação crônica e do envelhecimento acelerado, além de ajudar a prevenir doenças crônicas. Dr. Guilherme Leme
Especialista em Osteopatia e PNI Clínica
CREFITO 132113-F
Retirado do Artigo:
"Intermittent living: the use of ancient challenges as a vaccine against the deleterious effects of modern life", por Leo Pruimboom e Frits A.J. Muskiet. 2016.






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